quinta-feira, 30 de agosto de 2012

::CAVALO SELVAGEM::



Você pode fechar as portas, agora os sonhos estão dentro de mim.
Vejo a fumaça se dissipar diante de meus olhos, o jogo está no final.
Ninguém vencerá desta vez, eu posso pressentir.
Vamos nos perder, aonde as estradas não tem fim, adoeceremos no desfiladeiro.
Somos máquinas, tortas, enferrujadas, com suas bagagens pesadas.
Os dias vão passar, e agora um pesadelo pode conversar com nossa angústia.
Eu lhe dei minha última dose e você estourou meus pulmões com seus gritos.
Não se apavore eu vou refazer nossos caminhos, eu vou precisar da sua boca para riscar meu corpo inteiro com suas fugas.
Vivendo na esperança de uma perda maior, nada pode ser esquecido sem toda esta dor,
Não vamos lamentar, usamos de todo nosso sangue neste pacto, então faça valer a pena.
Sacrificaremos novamente nossos instantes, vamos viver entre as rupturas e as lacunas.
Você me viu adoecer e eu enlouqueci...
Você foi minha fiel expectadora.
A música de fundo acabou e eu sinto que não posso sentir minha pele presa no meu corpo.
Porque insistimos neste vício que quer nos alojar aonde o medo nos enforca cada dia mais?
Posso ouvir seus passos pela escada, apreensiva, eu vou comer e cuspir a sua doença.
Preciso que você fique nítida e lúcida para me ver dentro das trevas.
Claro, eu tenho visto demônios nos rostos de anjos e sentido o gosto da perdição nos seus silêncios.
A razão não vive ali, aqui em mim, tudo é provisório, estou sempre desmoronando...
Dê-me então seu fôlego, preciso sair daqui, porque o ar aqui é denso e me deixa distante de uma realidade que sempre temi que sustentasse a minha imanência inautêntica.
Meu único amigo fiel sempre foi o fim, ele demora a chegar e meu sentimento é de demência.
Nas minhas páginas os românticos morrem, os Deuses choram e os loucos perdoam.
Vou ressuscitar uma dor que vive aprisionada no meu ser, agora todas as crianças poderão dançar insanas em volta desta fogueira.
Eu vejo através dos olhos delas os reflexos da minha existência mais perigosa, eu vi o abismo e lá no fundo existe algo que deixei cair.
O Rei está excitado então tenho que destruir esta parede que quer me inibir.
A serpente rasteja em direção aos meus pés e o caminho será longo demais, sete palmos.
Fique quieta, minha pele está queimando, estou renascendo.
Eu posso te mostrar toda a perdição, a minha salvação estará na sua indagação.
Está com medo desta ilusão?
Pule para fora do ônibus, não precisa temer, o motorista é competente e o tombo te fará acordar.
A Rainha matou o bobo da corte e agora ouço gritos na sala de jantar.
Enfurecida com a beleza da sua irmã mais jovem, ela tem a eternidade no seu coração,
E um desejo de matar que abraça cada milímetro do seu corpo.
Estamos todos mortos, e eu estou sorrindo porque isso não me fará eterna esta noite.
Suba neste velho cavalo que ajudou a levar nossa carruagem até aqui.
Ele parece arisco, rebelde e faminto, mas ele não quer sua dignidade.
Ele não precisa de tudo isso, esta fumaça vai desaparecer e logo poderei ouvir o barulho dos trilhos do ultimo trem, então...
Acordarei!


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

::O MEU NOME SECRETO::



Rosas despetaladas, olhos atentos, eu não posso me conter...
Eu não pude, fui consumida e sumi.
Transformei-me em algo que não caberia dentro de você.
Então percebi que as águas estavam profundas demais, te afoguei.
Eu tentei não ficar presa nisso tudo, mas não evitei o máximo, não dei nada por isso.
Ganhei a tragédia!
Não posso mudar os lugares da sua mente, mas posso pensar que posso sentir sua respiração parar.
Quando olhei para os trilhos negros,  você já havia partido e me despedaçou.
Está nas minhas veias, seus traços estão alojados nos meus ossos.
As coisas podem mudar com calma, não é culpa de ninguém.
Tivemos envolvidas por uma névoa ardente e ilusória que nos tragou e depois nos cuspiu.
Tentei morar no abstrato do silêncio, não resisti, chorei tão magicamente que ouvi meus pensamentos gritando por um tempo melhor.
Eu retomei o fôlego, eu ainda tenho o seu dissabor marcado no meu âmago.
Angústia amiga minha, se me rodeia tanto, diz como faço para me engendrar nas suas entranhas?
Já está tarde, a lua irá me vigiar!
Perdi de novo a procura de mim mesmo, eu estou certa de que as tempestades vão arrancar meu corpo do chão novamente, e não posso me desesperar.
Acolha-me, respire minhas incertezas, pois estou tentando falar em uma língua que ainda não consigo compreender.
Iluda-me, porque assim eu tenho inspiração para desmontar meus caminhos que pareciam tão seguros.
Preciso ficar no escuro, levante-se e vá ver se os espelhos estão cobertos.
Sua posição é favorável para apreciar o meu vazio.
Assopre para longe nossas cinzas, precisamos parar de nos comunicarmos, agora não estou podendo compreender as suas exigências.
Transporte-me para o seu lugar secreto eu sei que lá existe um tipo de dor que me dá prazer.
Rapte os meus sentidos eu preciso ver o fogo consumir o meu último abrigo que foi um fracasso.
Necessito do seu descaso, a sentinela bateu a porta com força demais desta vez, estou fechada.
Ouço alguém caminhar dentro de mim, e não, não pode ser você.
Lancei-te para longe, e como pode você ainda ser eu dentro de mim?
Sou eu querendo de novo tentando retirar os meus laços de onipotência.
Perdoe-me, eu desejo não ter forças, preciso meditar aonde às lágrimas façam um sentido maior do que o medo.
Arranque as portas, as janelas, me deixe criar tudo de novo sem uma abertura tão agigantada.
Se eu não puder recuar agora, amanhã as rosas não iram crescer.
Eu vou sabotar meus delírios e violar os meus pudores, pois, preciso me abster de me ter sempre como eu planejei querer ser...

terça-feira, 21 de agosto de 2012

::MIL CAIRÃO AO TEU LADO::



Poesia, porque não me escolheu como pupila?
Talvez eu não  tenha dom para isso.
Se é que isso a que me refiro seja algo que seja contestável.
Indesejável desejo que me devora.
Se eu tivesse um porto seguro para ancorar meus pensamentos que navegam à deriva.
Ali me faria poetiza.
Poesia para mim é ira, doçura, partida, chegada, amor e calor.
É homem, mulher, bicho do mato, quem ela quiser.
Ela é o que eu não consigo ser por agora.
O instante que brota e se revela sem demora.
Poesia é o cochicho dos deuses, o hálito do benfazejo dos contemporâneos perdidos.
Ensejo inquieto, indiscreto e incompreendido.
É sentido que não se domina, só contamina os egos corrompidos.
Poesia também é rancor, sabor de mágoa contida.
É festa sem convidados, mas também pode virar um banquete para os loucos e oprimidos.
É voto nulo sem vaidade,  impiedosa com seus insultos, versátil por naturalidade.
Poesia é praga para os alienados, e útero para os já vividos.
Junto dela, caminham vermes, pastores, serpentes e divinos.
Dentro dela, moram atrizes, meretrizes, jovens, velhos e olhos famintos.
Kundera sabia da sua fúria, Goethe lia poesia fazendo a filosofia virar antropofagia.
Platão recogitou a “physys” quando mergulhou no seu ar poético.
 Ramayana e Mahabharata seriam patéticos sem poesia no seu épico.
E ficam-me os dedos enfraquecidos!!!
Aonde há poesia, existe o caminho, não sei se de lá se volta.
Poder-se-ia resmungar a respeito, não temos o direito de questioná-la.
Apenas apreciá-la e respeita-la, afinal, se desta vida partirmos sem destino,
Junto com os poetas seremos redimidos.

::NELSON GONÇALVES::



E se não fossem cores feitas de atores?
Desnudos permanecem os pensamentos.
Revestidos de cimento, cheirando a paulista.
Benditos sejam!
Malditos também, já que não tenho apreço algum por ninguém.
Ou teria eu medo de temer que não tenho alguém?
Refém da própria ignorância!
Não sou, não tive escolhe de ser.
Só fui, voltei algumas vezes, mas lá não permaneci.
Aonde os nevoeiros fazem festa,
Aonde adormecem as velhas e amanhecem noviças rebeldes.
E se o céu for só, feito uma miragem perdida no devaneio?
Não creio, não pode ser tão vulgar como as coxas de uma donzela antiga.
Temida pela penumbra da noite, bêbada e sarcástica com ar de formol.
Ilustres pensadores, por onde andam seus passos que não vejo?
Presos em livros, cartilhas em um só desassossego.
Poderia ser pior, não estar em lugar nenhum.
Em uma língua qualquer aonde não tivesse boca para beijá-la.
Aonde o gosto do azedo, não é segredo para os sacros.
Sinto que desacato minha própria linguagem, que agora é uma orquestra.
Em dó maior e ré menor, orquestrada por uma varinha mágica.
Ponderada por um violinista cego, que na sua ultima visita a realidade,
Viu o mar virar sertão.
E por que não desafiar este nobre e desgraçado violinista?
Ele rege uma orquestra só minha.
Aonde o Nelson Gonçalves tomou seu último gole vestido com uma roupa de sucata...

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

:: GALHOS CORTADOS::



Enquanto eu ainda puder lembrar, o impacto será cada vez mais profundo e novo.
Tocando a fumaça do trem, vendo o céu ser coberto por aquelas malvadas nuvens.
Ninguém tem culpa, estamos envolvidos sem querer.
Eu não consigo entender direito, eu tentei, mas ficou abstrato demais para minha mente.
Cada círculo é uma volta para o passado.
As flores estão morrendo, eu posso sentir as pétalas caírem.
Preciso reposicionar as coisas, eu pressinto que posso enlouquecer com a chegada do dia.
O palhaço dorme no pátio frio do circo vazio.
Uma ventania abraça o seu corpo, você vai congelar e com o raiar da manhã tudo voltará ao normal.
Assopre estas coisas do seu corpo, eu vejo por trás destas marcas as posições da sua dor.
Não adianta tentar fazer com que as mudanças nos levem para uma nova direção,
Sempre voltaremos naquela estação.
Não é possível saber a intensidade e a liberdade da primavera se não passarmos pelo árduo frio do inverno.
Os galhos estão cortados e o jardim está isolado da ponta dos seus dedos.
Tente descrever, você pode ver outras formas caírem nas suas folhas do seu caderno, mas não será capaz de compreender a engrenagem das suas dúvidas.
Comunique-se, engula o propósito deste seu estranhamento, viva e reflita sobre esta lamaçal rotina.
Nada pode terminar sem um gosto amargo se não fomos capazes de reconhecer que aquele gosto doce que tínhamos era algo que só sentíamos por dentro.
E o mundo estará em chamas no seguinte instante, viveremos  a metamorfose como consequência, porque não nos consumimos o bastante.
Eu sei da sua maior dificuldade em aceitar tudo aquilo que já perdeu, sei também que machuca quando você pode ficar só e experimentar a sua angústia e criar seus desejos a partir disso.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

::PERDIDA::



E se aquela paisagem não for real?
Se os meus sonhos não forem reais?
Para onde eu irei?
Por onde meus pensamentos tem me levado se não a beira da loucura?
Não, eu não sei!
Não devo pensar nestas coisas, elas já estão pensadas.
Sabe o que acontece quando todos se vão?
Fico na mais plena escuridão, aonde não ouço os corações baterem agitados, aonde o único caos é o que acontece na minha mente.
Será que sou dependente de alguém que ainda não existe?
Ou de alguém que nunca existiu?
Quem eu estive sendo a um segundo atrás?
Eu juro que se não tivesse uma memória tão grande, não saberia quem estou sendo neste instante.
Mas tudo é vago!
As camas estão vazias, os olhos estão inativos e a solidão se aloja no meu abismo.
Será que realmente tenho aonde habitar?
Não, os ponteiros não podem me assombrar de novo, eu não teria como escapar desta melancolia.
Talvez eu tenha me tornado uma boa fugitiva, ou será que eu nunca sai de onde pensei que estava?
Para onde meus sapatos tem me levado?
Ora, ora, isso lá é hora de indagação?
Sim, e eu não consigo escolher a finco como antigamente quando vou ou não questionar.
O vento me roubou o juízo e a terra me solidificou.
Mas passei anos, estes anos todos, arruinada pensando que eu tinha uma fortaleza  e que eu podia confiar naquela torre alta que se escondia atrás das nuvens negras.
O lugar seguro não existe mais!
Ou será que eu desisti de acreditar nele?
 Mas porque raios eu faria isso?
Com quem eu estou conversando agora que minha voz não sai?
Estas palavras todas ficam girando em círculos na minha cabeça, só eu posso ouvir minha voz.
De repente desconfio da porta aberta, talvez eu não tenha de fato atravessado esta coitada com franqueza, eu a usava apenas para fugir...
Quem é esta pessoa de olhos inchados que reflete neste espelho?
Vai começar a chover de novo e eu não irei tirar as roupas dos varais.
Elas ficaram úmidas como minhas bochechas, elas não iram sumir feito um papel manteiga.
Eu sumo quando choro!
Ou será que fico mais presente do que nunca?
Fico!
Porque as vezes sinto que a morte me rodeia e me dá um prazer enorme pensar enganosamente que ela me pertence, que me quer de alguma forma.
Tolice,  estou variando não é possível que estas coisas dancem com tanto peso na minha alma.
Elas dançam, inclinando meu corpo inteiro para trás até que eu me atiro na cama.
Afundo lentamente no colchão cheio de mágoas.
Este travesseiro velho que não é capaz de suportar o peso da minha inquietação, agora é murcho e desonrado.
Violentei tudo, coisa por coisa, mas por algum motivo não cheguei ao núcleo.
Se é que existe um núcleo em meio a este nevoeiro de ideias tão antiquadas.
Qual é minha música preferida?
O som das teclas se fundindo com a ponta dos meus dedos, brincando de quem pode transcrever o que eu quero.
Tenha santa paciência minha jovem, você se faz nua quando se explica.
Tudo bem, fui eu!
Acabei de me acusar de que? Quem me acusou?
Está vendo, é só falar de mim que eu já me atiro na frente para não levar o choque sozinha.
Mas, eu nasci só, me lembro perfeitamente e desde que mamãe não tinha as mãos como meu apoio, vaguei por este mundo a fora e talvez não tenha voltado nunca.
Eu poderia ser uma heroína.
Não, não poderia, não posso, jamais,  sucinto demais.
Sinto que fui infectada por uma peste, uma praga daquelas terríveis e que só a dor me ajuda a aliviar a tentação de querer não acreditar que tenho isso.
Mas peguei onde meu deus?
De quem?
Será que foi da raiva, do ódio, amor, revolta ou simplesmente, peguei e ponto, acabou!
Mas é isso?
Isso o que?
Nem sei quem sou....





terça-feira, 15 de maio de 2012

::NADADEIRAS::


Tenho eu pensado nitidamente sobre o mundo e como as coisas nele estão?
Talvez não!
Esta exclamação dar-se-ia tarde da noite, enquanto os pássaros fingiam ser sonâmbulos.
Quando criança via um céu diferente, cheio de fantasias, aonde foi mesmo que eu as escondi?
Vivo a espreita dos assuntos, aonde as vozes não se calam.
É no silêncio que observo a jornada de uma folha se jogar no chão, pálida e vivida.
Não resta dúvida alguma neste momento, ela também estava presente todo este tempo.
Estavam presentes também, mil coisas, pensamentos e bocas imitando os sussurros dos surdos.
Os surdos estavam presentes, ilimitados de prazer, certamente existe um porque dos olhos deles serem tão profundos e tão pouco contidos.
Lá vem novamente aquele verme rastejante, debruçado no canto escuro da porta do meu quarto.
Esperando que eu vá dormir para que ele possa reinar.
Uma linha jogada no tapete parece indicar alguma coisa além de estar deitada sobre um espaço que pouco habito, embaixo da minha cama também existe vida.
E lá vem aquele verme, lentamente, sem pressa vai rabiscando com tons coloridos minha parede.
Espera! Isso não é um verme é uma lesma.
Sou mais animal que humana nesta hora, sinto-me desprotegida de todo arsenal do pensar.
Entregue a mais pura ignorância, nua de corpo e alma.
Alma, penso que ficar presa em uma areia movediça deva trazer a sensação de estar nascendo de novo.
O movimento deve ser cauteloso, quanto mais bruscamente eu tentar sair do mistério, mais afundarei nesta areia vingativa....
Sinto-me cansada, exausta de tal forma que, meus pés parecem não suportar o peso da minha fadiga.
Será este um sinal que talvez eu devesse aprender a voar?
Não, deixo isso para os pássaros que me divertem me deixando tonta enquanto fazem suas acrobacias de olhos fechados, sonâmbulos e extravagantes.
Estou com dificuldade para fechar este texto, esta coisa ácida e sem nutrição de normas.
Estou à deriva, como outras coisas que tenho tentado narrar e acabei virando o barco.
Aqui estou eu, debaixo do barco, na sombra de madeira, meu corpo todo dentro da água, conectado com o desconhecido.
Batendo os braços para não afundar, engolindo sentimentos e fúria, nesta hora, aonde estão minhas nadadeiras?
Ora, não tenho nadadeiras, deixo para os peixes que parecem rir da minha posição quase uterina.
Nossa, agora entendo perfeitamente, ou não, este barco já esteve furados várias vezes, posso ver os remendos através dos raios do sol que atravessam os remendados buracos na madeira desta navegação individual.
Como eu pude, me diz?
Viver à deriva com um barco remendado sem ter percebido que isso um dia iria ser perceptível.
Com muita força, desviro o barco, pronto estou dentro, molhada e constrangida pelos pensamentos dos peixes sorridentes.
E agora para onde vou?


terça-feira, 1 de maio de 2012

::O LUGAR NU::


Em toda ausência existe uma declaração sofrida no pensamento.
O pensamento é a própria fala que não narra o que se é possível sentir.
E no tamanho desta gigantesca realidade, portas se abrem. Os meios se rompem!
Pelas frestas destas doentias rachaduras, pode-se ver sentimentos.
Sentimentos alados, calados, isolados e vivenciados.
Dar-se-á o perdão então para os que aqui presente nos encontraram.
Neste desencontro de palavras, o que se sente é um vazio.
O vazio que faz brotar a mais perfeita abertura para o que se pode ter.
E o que se tem, no outro instante já se detém.
O que se fecha, não nos cabe decidir resguardar ou não, o destino em que cremos um dia, na noite se tornará em vão.
Ó grande melancolia, tão sábia e tão reprimida, abro meus braços, pode vir.
Com força, com doçura, quero aprender através das suas travessuras.
A língua que possuo não lhe cabe, a definição que tenho de você, não me sabe.
Se não me sei, basta apenas que eu me aquiete e te vigie.
Sentada em galhos conscientes, a altura desta vertigem é maior que o meu medo.
E o meu medo, não é segredo para o mistério.
Ele me tem, de corpo e alma!
E do desconhecido me alimento no sigilo do descontentamento.
Busco sem saber o que achar, descubro presentes que me encontram.
E neste encontro tão inseguro desconcentro-me de tudo que um dia aprendi.
A Aurora me rende, o pôr-do-sol me vinga, eu de tão curiosa aprendi a não ser tão descrente.
O que nasce não é meu, é parte minha, que também logo se esvai como cinza.
O aprendido se desprende, se exprime em palavras chaves, sem portas, com janelas, esperando ser espiadas.
A visão é embaçada, só se vê vultos, se fala com eles, e o inconsciente se encarrega de transportá-las para o lugar nu.
O lugar nu, não tem útero, ideologia,  abrigo, moral ou determinação, ele é profundamente incompreensível.
Dali, só é possível extrair vestígios!
Fico atenta então... já que por este vão, a linguagem passa e no seu contorno me transpassa.
Derretendo-me neste mundo viril, nesta terra virgem, dentre todos os conhecimentos que obtive nenhum deles me abrigou tanto a ponto de eu me sentir completa, nem eu o quero.
Quero viver a margem, ouvindo pedras rolarem, águas rolarem, lágrimas calarem, conversando com o que não tenho palavras, e nesta grande apreensão, viver a gratidão da linguagem sem razão.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

::RETINAS::


Você espera a dor passar e no outro segundo algo derrete o seu coração.
Porque esperar quando algo está queimando dentro de mim?
Os olhares me levam para uma rua sem saída.
Então me diz o que tem lá fora que me dá tanto medo de reagir?
Vamos, podemos desabafar quando o sol não puder queimar nossas retinas.
As portas estão fechadas e as pessoas dormem o sono dos justos e nós aqui esperamos que a noite apareça...
Não temos tantos créditos e o que gastamos na vida, tem nos feito pensar em coisas menores.
Não podemos esperar mais um minuto, agora está ficando tarde demais.
Aquela bebida que gostávamos se esgotou e agora a água está escura.
O mundo está mais engraçado e nosso humor anda tão péssimo.
Então o que estamos esperando?
Acordar de um sonho que nunca podemos idealizar?
Algo não está certo,  não adianta remendarmos o passado.
Para alguma direção temos que correr quando o chão se abrir novamente e tentar nos engolir.
Em outubro tudo vai parecer melhor, só que em breve o inverno irá nos enfraquecer novamente.
Ainda esperamos lidar com o que não podemos imaginar?
Aquele papel ainda está dobrado, com um endereço marcado.
As casas estão desmoronando e alguém disse que isso era provável,
Mas se esqueceram que as pessoas estão dormindo e a noite logo irá chegar.
Sim, me sinto triste e isso nunca foi tão irrelevante!
Então,  espere, você não pode partir e sem levar uma parte de mim, porque eu não consigo carregar tudo isso só...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

::ILUSÃO PRIMARIA::


Um grande rio, uma correnteza delirante.
Nos céus uma fuga legítima, na terra uma vida sentida.
E se o desespero me acordar deste sonho?
Estarei por aqui, como ontem, agora e talvez amanhã.
Rabiscando os delírios mais melancólicos que ainda me fazem companhia.
Acompanham uma existência terrivelmente insana e cheia de gestos obscuros.
Escuridão, ilusão primária.
Quando pensei que estava crescida, minha arrogância fez de mim pequena novamente.
Neste movimento, estou rendida!

A corrida sem pernas de quem vê e sente o solipsismo com outras lentes, por outras lentes, lentamente...

 Não invoco respostas, as perguntas não me sufocam mais!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

::A NOVA CASA::


Estenda suas mãos!
Os olhos estão pregados e sangram muito.
A dor está tentando te curar, não tenha medo.
Você rastejou até quebrar seus joelhos.
Não se sinta tão terrível, as lamentações não resolveram nada.
Eu sei o quanto você tentou fechar a sua boca, e isso te sufocou.
As paredes estão desmoronando, agora pode rir alto, não engula o choro.
O caminho está aberto, e as lágrimas não vão mais te purificar quando você se sentir estrangulada.
As flores estão murchando e o céu está pintado de vermelho.
Não precisa mais fingir que está no mundo, os canaviais estão em chamas.
A serpente está espionando a sua tristeza.
Sinta esta angústia te cortar, essa é sua salvação, o dragão vai te levar para as alturas.
Antigamente você se livraria deste medo, hoje a noite será seu escudo.
Os círculos estão abertos e a sua selvageria te deixa no topo da sua consciência.
Suas veias estão validando a sua partida para o outro lado.
Contemple!!!!
Os dias agora não serão tão longos, você poderá ver o brilho apagado dos infelizes.
Tudo está tão alto assim, que você se sente expirada de dentro para fora?
Sua mente nunca te enganou, você se fixou dentro de uma realidade que não era tão sutil quando parecia.
Deixe os vermes passearem pelo seu corpo, eles vão tragar lentamente a sua solidão.
Escute, sua melancolia está aberta e sua casa renovada, como você sempre quis.
Uma doce viagem que lhe custaria todo um instante carnal.
E este prazer que você sente, te manterá viva por mais um tempo...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

::GOSTO DA RUÍNA::


A chuva está caindo novamente, e a noite está cheia de medos.
Eu estou cheia de medos!!!
A sanidade tirou suas férias, atrasada!
Um monstro na escuridão segurando uma vela dourada.
A mãe está morrendo no fundo da sala, e ela quer amamentar meus delírios.
Suspensa a claridade, os olhos estão dentro dos corações.
O axioma está montado.
Estou no centro, as mesas estão pegando fogo, lentamente.
Assistir uma miséria não é necessariamente algo muito bom,
Mas com uma pitada de humor negro tudo torna-se excitante.
Ascenda seu isqueiro, os jornais estão perdendo as linhas.
A única noticia boa por aqui é que, quando nos concentrarmos estaremos longe disso tudo.
Feche a boca, lentamente para sentir o gosto da ruína.
É lamentável,  seus passos estão cada vez mais pesados.
Seus pulmões doem, e as minhas mãos tremem.
Seu pai usa um terno vermelho, no centro, o fogo vai queimar suas emoções.
Está tudo estampado e os escudos não servem para mais nada além de, enfeitar minha solidão.
Estou falando sério, existe algo tentando me iluminar,  mas acaba me cegando, a luz me tira da sanidade.
O som está cada vez mais alto, e as crianças agora comem a carne podre de seus antepassados.
É quase meio dia e a tenda está se desfazendo.
Aquela tenda que eu usava para esconder meus restos mortais.
No vão dos dentes, sangue e muita obrigação para com o mundo.
E o mundo não é tão comum quanto meus olhos pensavam.
Minha mente abre lentamente as portas do calabouço.
Não precisa ter medo, ali dentro eu estou sem máscaras...

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

::ESPINHOS DE FERRO::

Flui dentro de mim, uma coisa obvia e destrutiva.

Um demônio que faz coleção de sofrimento.

Toda vez que parece diferente, eu sou arrastada para a decepção.

E no segundo seguinte eu olho através dos meus olhos no espelho,

E vejo lagrimas que brotam dentro de mim.

A sensação não é boa e qualquer coisa que me eleve eu aceito.

O cansaço me trai quando eu tento contar a ele sobre minha tragédia.

É mais prático viver em um mundo real, mas isso não flui normalmente em mim.

Quando observo as pessoas, coloco dentro de um pote e vejo as possibilidades.

Porém, quando descubro que não tenho poder algum de mudar o que sinto,

Despenco de uma escadaria e fico dias no chão rindo da minha comédia invasiva.

Ninguém pode me dizer que eu não tento, pois, o que mais faço é atravessar a neblina.

A réplica está feita e o chão cheio de água salgada.

Não posso tocar nesta parte, não desta vez não posso ficar longe por dias.

Existe algo ruim dentro de mim e aqui dentro as flores não crescem saudáveis.

O que eu sou? Um monstro ferido, uma pessoa que engole suas feridas.

Estou aflorando e tudo que me resta é perceber que o meu conformismo é o meu apego.

Bata três vezes antes de entrar... é como se eu estivesse dormindo.

E o som ensurdecedor dos corações batendo, me deixassem viva por um dia melhor.

Feche a porta, a tristeza é um tiro no escuro e a minha alegria tira férias quando quero sorrir.

A música está alta e agora as roseiras estão envolvendo o meu corpo.

Os espinhos de ferro, encravados no meu peito não me incomodam, me fazem refletir.

O que eu tenho visto? O que tenho vivido? Quanto ainda me resta de expectativas?

Eu soluço alto, algo está fazendo sentido!

Logo eu volto, paralisada, esperando uma ação que não me destitua novamente...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

::QUANDO A NOITE CAIR::

É só uma questão de tempo...
As coisas vão se misturando novamente, e o que era parado, move-se rapidamente dentro de mim.
Não que eu possa lentamente ir salientando tudo morre em mim, mas é pura decadência esperar a estrela se apagar.
Os panos estão rasgados e a graça de tudo vai se esvaindo sem honra.
Algo está por baixo e os lençois estão escapando com a força dos ventos do sul.
Se fosse possível falar uma lingua menos insana, as rosas morreriam lentamente no silêncio de uma noite gelada.
E se os ouvidos fossem mais apurados, eu teria um abrigo para ver o mundo ingenuo e mudado.
Escute, agora aquela voz vem vindo na escuridão e não sei aonde me esconder.
Eu poderia preparar uma boa bebida e meditar sobre todas as circunstâncias aonde estive ausente.
Não, de novo não, esta coisa toda me faz querer voar para um lugar novo.
Então eu acabo me abandonando, deixando rastro para o meu passo renegado pela minha coragem.
Preciso dormir, e o meu maior tormento é que, sozinha eu aprendo... e me desprendo de tudo que me faz odiar grande parte minha.
Eu choro, pois, o real para mim, vem com uma grandeza sufocante e acabo não entendendo o que digo, faço e mudo sempre para uma versão desatualizada do que sinto sobre o que vivi.
Eu me deprecio, estou longe sussurrando por um socorro que só pode vir quando a noite voltar a cair sobre minha alma...

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

::Postes Ilustrativos::

É como uma pedra quebrando nas minhas costas.

Esta facilidade que eu tenho para falar da dor, é algo que eu não compreendo.

Falando, gritando, de repente, no silêncio da noite eu procuro algo para não me enlouquecer.

Vou de encontro com uma voz que se insinua dizendo que os meus sonhos são pequenos,

O lugar dos meus desejos deu estadia a uma precoce desconfiança que estou no caminho errado, e não me preocupo pois, quando eu tento parar de caminhar nesta estrada, aparece um atalho, algo maior me atravessa e então, estou de novo na beira do abismo.

Quando tento ir devagar, me prendo a uma situação que me arrasta pelo chão, eu acabo pulando, me curvando a uma circunstancia maior que não me impressiona, que é o peito fechado para receber as coisas que tentam me lançar.

Se a sorte é uma coisa que vem comigo, então eu digo que ela é meio traiçoeira pois, está constantemente transformada em uma pílula de pressão que entra pela minha boca como uma água gelada e atravessa minhas veias e corta minha pele em mil pedaços.

Esta realidade toda que se envolve comigo eu entro numa paranóia de que, uma parede vai cair sobre mim da noite para o dia.

O dia é inconstante e eu ando tão envolvida com o pouco que me resta, e o que resta sou eu dentro de um universo cheio de mágoas e falta de resoluções.

Não desisto, mas falar de curativos quando se tem sempre um peito aberto para agüentar pancadas, é delicado já que, vivo sozinha dentro de uma depressão cheia de inconstâncias frenéticas e insolúveis.

Quando peço um tempo para mim, sou esfaqueada por trás, meu passado me corta feito papel e novamente eu estou dolorida para escrever sobre o que realmente eu sei fazer, lamentar.

E lamentar não é somente viver a espreita de uma constante indagação de onde anda a felicidade, e pedir perdão costuma participar da minha fala extraordinária sobre o que eu não sei dizer quando pergunto como eu estou.

O ataque é rápido e então a fuga é quase irresistível, mas eu se que não posso moldar uma questão dentro de mim, porque, a pergunta que me alcança é a mesma que me cerca por anos.

Talvez eu seja uma presa, um nome dentro de um baú, ou um corpo cheio de paciência, carregado de memórias e extremidades profundamente magoadas.

E se eu tivesse uma chance de mudar tudo isso, eu não mudaria, pois, estou retornando a minha infância e o sangue que escorre dos meus olhos, me trás de volta a ser o que eu estava sendo.

Não me engano, as certezas que um dia eu tive, se foram, e com isso eu tive a oportunidade de conhecer vários ângulos das minhas agonias.

Vou vomitando nervosa sobre uma mesa cheia de tribulações.

O mundo vem me comendo e eu vou apreciando até o ultimo pedaço desta fatia gigantesca de maldade.

Estou em um labirinto, adentrando aonde a música mais sonolenta não chega, aqui é tudo agitado, eu não paro um segundo, minha respiração faz com que eu exploda todos os dias.

Escapar, não, uma rainha torturada conversa comigo, e ela diz que a vida vem passando e que as virtudes que eu quero, estão próximas e eu acabo por destroçá-las com medo de perder o valor da esperança.

Tenho meus dias de glória e eles costumam durar até quando eu prendo o suspiro e choro alto como se eu pudesse achar um amplificador dentro do meu cérebro.

O fato vai dilacerando meu temperamento, e o que é racional vira um filme repetitivo, e então eu peço um bis, mas isso não me consola.

O demônio dentro de mim está sempre mudando de lugar e então eu tento pegar uma distração para que ele envelheça antes que eu possa me tornar sua filha preferida.

A cidade continua prateada e cheia de perigos e estou trancada em uma fantasia que alguém pode vir e ver que o escuro é bem mais emocionante.

Quando eu perco o controle eu vejo o que os meus olhos não tem medo de construir.

Esta construção vai me levando até o submundo aonde eu me criei, aonde a luz chega de vez enquanto para me iluminar e me tirar do tédio.

No minuto seguinte eu começo a repetir tudo de uma vez só, só que os valores são diferentes, eu procuro não me julgar, mas é quase inevitável e de novo, bum, eu explodo e vou para todos os cantos da onde eu aprendi a me virar sozinha com o que tenho para sobreviver.

Viver aonde o sol também nasce e aonde a lua vira minha adorável companhia.

Muitas pessoas vão e vem na minha vida, o amor que vem brotando sobre este distanciamento fez com que eu aprecia-se o consolo que vem das palavras que preciso quando estou sonhando alto demais.

As pessoas vão sentindo e elas podem se policiar todo tempo e não o faz, em particular as partículas vão se dissolvendo diante dos meus olhos.

Os segundos vão surgindo na minha ótica distorcida sobre o que penso o que é o mundo problemático que eu sinto.

Existe amor em tudo, mas o ódio alimenta uma coisa em mim que é como se o único combustível que me mantem de olhos abertos é o desespero.

Imagine só, eu de bem e de mal, todo tempo mudando as coisas, rastejando pelos esgotos sombrios, aonde a maioria da população se esconde e tem vergonha de admitir.

É prazeroso falar do imundo, mas estar suja todo tempo faz de mim uma pessoa pendendo para um infinito desabor do que é viver.

Não existe problema, eu gosto de viver como vivo, as minhas bagagens estão pesadas, e todos estes anos eu tenho deixado algumas conexões de lado.

Meus ombros doem, meu coração está a flor-da-pele.

Classes vão nascendo e eu morrendo tentando ser uma pessoa um pouco menos idiota de sentidos.

Sou sensível e minhas cavidades estão ai para quem quiser ver o que habita o meu inconsciente.

O consciente vem brincando, e eu vou satirando com tudo que vem se mostrando.

O que levo a sério é esta coisa de luta contra a ignorância parcial da humanidade ilustrativa.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

::DIA INTERMINÁVEL::

Posso acessar o silêncio?

Talvez não.

Não que eu não queira, mas querer está longe de tudo que no tempo passa.

E o tempo passa, rápido, sorrateiro e barato.

Caro, quando consigo me redimir dos danos malignos que causei a mim mesmo.

Mesmo quando eu fico apavorada quando percebo o tamanho do sentido que as coisas se dão para mim.

Para mim o dia é noite, e a noite é um dia interminável.

Termina, e eu que queria uma juventude modesta, hoje sou desonesta com o que sinto, puro desespero.

Desespero porque eu ainda não sei o que quero ser.

Ser talvez, qualquer coisa, ou uma coisa em si que seja algo pra mim.

Pra mim tudo é algo, e algo é alto demais, vago e isolado da minha concepção de realidade.

Real, ai está a falta do sujeito imperfeito que se transformou meu consciente.

Inconsciente que desloca para baixo toda minha fixação por responsabilidade.

Responsabilidade é coisa de vida, destas asas que não me soltam e que são minhas únicas amigas.

Inimigas de qualquer um que tente subornar a minha lealdade.

Maldade que se inicia no meu parto existencial e que violenta minha morte paternal.

Patrimônio vencido desde que foi tomado, arrombado por assim dizer.

Como eu vou dizer algo se sinto que nem mais tenho voz?

Parece que tudo está sendo repetido, não consigo um incentivo para incendiar este pensamento foragido.

Fugitivo, meu laço com o que por mim foi perdido, está rompido.

Desgarrado, ilhado, isolado, assim se encontra o meu destino.

Mas tenho fé, não sei em que, para que, e de onde vem, mas tenho.

Não temo, às vezes fraquejo, enganada por falsas heranças, nada hereditárias.

Sedentárias, cobranças sujas, exílio total da linguagem.

Imagem, não me falta!

Me fala então você!

Você, este monte de coisas que vem e que no outro instante me deixa só.

Que quando chega me fascina e quando vai me desanima.

Não me tornei escrava da solidão, me tornei aliada desta sede pela busca do meu caminho.

Um ninho, sem ser útero e nem refúgio.

Porque ainda me vejo sentada no último vagão daquele trem antigo, partindo, lentamente, para uma cidade fantasma?

Que sensação é essa de que tudo pode ser eterno?

Mas sei que não é.

Porque então insisto em persistir que tudo não passa?

Ora, ora, Viviane, não seja assim

No ventre do abismo você nasceu.

No colo deste mundo insano você cresceu...

segunda-feira, 20 de junho de 2011

::DOIS CORAÇÕES::

Vamos revogar o direito de ter dois corações.

Tirar proveito das péssimas situações.

Vamos ter laços, abraços e pedaços.

Em um pequeno silêncio memorizar nosso cansaço.

Vamos revogar o direito de ter dois irmãos.

Um descaso da vida, um voto de perdão.

Pra compartilhar o dever de estar na solidão.

Se não é só, é em vão.

Se for em vão, trará para a vida a compreensão.

Se desprender, soltaremos uma grande confusão.

Lamentaremos o dia em que aprenderemos a dizer não.

E se dissermos que sim, que estejamos afim,

De continuar uma prosa, mesmo que não se musique,

Soletraremos cada dor com um nó na garganta inspirada de paixão.

E se alguém não quiser voltar, que esta mágoa que eu tenho,

Que cisma em teimar, queime todo meu pavoroso sigilo doloroso e me faça despertar.

E se eu dormir demais, que eu adoeça, para poder assim descobrir como me curar.

E se esta cura não durar, eu possa um verso novo rascunhar...

sábado, 28 de maio de 2011

:: Folhas de piadas::

Quebrando o que sobrou de um muro que eu construi dentro de mim...

A poça está cheia, são lágrimas, antigas e sentimentais.

Parece que eu não consigo ir para frente, alguma coisa me puxa,

Quando eu consigo me libertar, dói.

Eu tento recomeçar de novo, mas minhas pernas estão machucadas.

Estou alta, e então eu percebo as folhas me rodeando, com suas piadas sujas.

E é isso?

Tenho que ser uma, qualquer coisa, pode ser um brinquedo, mas um que faça menos barulho.

Eu venho tentando e isso não me trouxe as estrelas.

Correndo, o grito sai correndo de minha garganta, pois, eu estive só ali.

Embriagada de certezas, escavando um esconderijo que me lembrou um abismo.

E finalmente eu cheguei no fundo, não, eu não cheguei, não existe fundo.

O vazio conversa comigo, e as vozes estão sorrindo dos meus olhos apertados.

Gostaria de parar tudo, simplesmente um pouco mais de paz, ou de ser capaz de me deixar para trás quando minha insegurança tentar me sufocar.

De onde eu venho, o sol é sempre laranja, e o mar sempre verde.

Os olhos são neutros, misteriosos globos anedotas.

Minha especialidade sempre foi perceber o que estava errado, e eu sempre fui indiferente quando as coisas pareciam estar indo bem.

Não consigo reconhecer nada, me tornei egoísta, fechada, isolada e desamparada pela esperança.

Perdi o controle, meu corpo está rachado em milhões de pedaços e cada um deles, narra uma parte minha que quer ser removida para sempre...

sábado, 16 de abril de 2011

::Fio da Morte::

Puxando o fio da vida, conceituando as dores ancestrais.

Não adiantou ter um bom coração, eu estava alta, cutucando o destino com fúria.

Demorou muito, acabei de perceber que esta força que me move, me ergue para uma dimensão aonde as turbulentas memórias me desconstroem.

Agora eu posso ver um par de olhos suplicando carinho, são os meus olhos que um dia eu deixei de notar.

O caminho é longo e estar longe me faz querer ficar para trás.

O que eu poderia descrever sobre tudo que tenho vivido?

Talvez, pelas circunstâncias em que me encontro,a falta de risada brinca com a minha piedade.

Eu disse, lá atrás, que nada era totalmente certo o refúgio que eu sempre desconfiei, me ilude com seus brilhos ofuscantes.

As luzes estão se apagando, e o meu coração bate lentamente, eu estou novamente perto de descobrir algo, e logo, sou acometida por uma coisa maior do que eu julguei ser minha existência.

Por onde começo a procurar os sentidos que perdi?

Como eu posso negar tudo isso?

sábado, 2 de abril de 2011

:: DOENTIO E NEGRO::

Possibilidade carrega perigo...

As vezes eu tento tocar uma parte em mim que está morta,

E tudo fica estranho, eu viro uma massa de ódio.

Uma massa cheia de devaneios e o passado caminha dentro de mim.

Ser franca uma hora destas e abrir a boca e fechar os olhos.

Os problemas vão correndo por todos os lados e as portas estão com as chaves esgotadas.

O que você poderia querer com um coração tão amargurado?

Talvez um adeus, uma brincadeira de mal gosto, e tudo está abalado.

Quando eu tento resistir, eu sou tragada por uma fumaça negra,

Meus ossos doem e minha tosse asquerosa se espalha por todo ar.

Se gosta de tudo isso, masoquismo passa longe.

Veja, as coisas vão ficando de uma cor vermelha

Cancelaram os últimos pedidos para pílulas anti – depressivas,

Então vamos caminhando para a beira do abismo.

Lá em baixo estão as incertezas, e aqui em cima os dedos estão silenciando as obras primas.

Deixando rolar, então um grande amor está dilacerado e isso nunca é o fim.

O fim vem quando eu percebo que posso sempre ressuscitar qualquer tipo de sentimento.

E sentir é um vento forte, avalassador e as crianças gostam disso também.

Eu ouvi um barulho, uma veia estourando.

Estou só no meio de milhares de pessoas e não posso escapar disso.

O lugar está todo abandonado, e então se eu quero ter honra é melhor eu ficar quieta.

A noite está horrível e eu sinto que algo está se aproximando.

Um jogo paradoxal, aonde a quântica dos argumentos está estacionada atrás do presente.

O agora faz uma brincadeira insana sobre o que temos pra hoje,

E hoje é extremamente doentio e negro...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

::O Castelo::

Porque quando eu imagino um castelo, eu não me vejo dentro dele?

Sabe aonde eu estou nesta paisagem?

Do lado de fora, escondida atrás de uma arvore gigante, observando as rachaduras naquele concreto antigo.

Vendo que toda aquela imensidão de concreto, a qualquer instante pode ser derrubada por uma tempestade...

Naqueles arredores não existem cavalos brancos, são touros fortes, bravos e onipotentes.

Gramas selvagens, ervas daninhas que crescem na borda daquele lago que banha as estruturas fajutas daquele castelo.

Aquele lago é sujo, erótico e desprovido de qualquer beleza.

É impróprio para banhos noturnos de melancolia, não lava, ele polui de vez uma alma caída.

Quem tenta entrar no castelo, chegando a ponte, e ela desce lentamente, vê a visão de algo tenebroso, algo tão real que é avassalador.

Quem entra ali, choca-se com o esplendoroso monumento que tem na porta principal.

Um homem de asas negras, abaixado, chorando e suas lágrimas se transformam em veneno mortal.

Alguns bebem daquele veneno, outros são tragados para o intestino da estátua e ali ficam até que crescem tanto que são expelidos para fora.

Naquele castelo, eu só entro quando preciso buscar um jeito real de conversar comigo mesmo, através do meu inconsciente fantasmagórico, brusco e abismal.

E quando eu saio dele, novamente eu me transformo em humana...